DÚVIDAS

«Estirpes de Mycobacterium tuberculosis extensivamente resistentes»
Os casos de tuberculose podem ser causados por estirpes bacterianas sensíveis a todos os antibióticos ou por estirpes resistentes a um (monorresistentes), a dois ou mais antibióticos (convencionou-se chamar multirresistente). Recentemente começaram a aparecer estirpes resistentes a todos ou quase todos os cerca de 20 antibióticos actualmente disponíveis para tratar a doença. A OMS começou a designar estas estirpes, em inglês, por «extensively resistant Mycobacterium tuberculosis strains» usando também a sigla XDR-TB (tendo já ficado esta sigla consagrada e em uso em todo o mundo — ninguém ousa modificá-la ou adaptá-la). A minha dúvida prende-se com a tradução do termo por extenso. Dado que tenho responsabilidades na gestão do programa de controlo da doença ao nível nacional, tive de adoptar a terminologia que mais se adaptasse à “gíria médica” e ao sentido que se lhe quer dar. A designação que adoptámos para traduzir «extensively resistant Mycobacterium tuberculosis strains» foi «estirpes de Mycobacterium tuberculosis extensivamente resistentes». Assinalo o facto de esta condição de resistência extensa resultar de um processo biológico de expansão sucessiva do espectro de resistência, não precisando, contudo, de ser resistente a todas os antibióticos para merecer esta classificação. Desde Setembro de 2006 que usamos o termo sem que tenha havido reacções negativas dos diversos grupos profissionais da saúde, e a semelhança com o termo inglês facilita a transmissão do conceito e é útil como palavra-chave para pesquisa bibliográfica. Desde já agradeço a atenção. Aguardo com grande expectativa o vosso parecer.
Fontes dos dicionários
Há dias enviei uma mensagem pedindo ajuda sobre o termo "beto". Hoje o meu problema é: Onde ficam registadas as fontes da elaboração de dicionários e seus sinónimos? A questão ainda se prende com o “jogo do beto”. É que em certos dicionários aparece o significado de beto como um jogo do “tipo” ou “género” ou “parecido” ou “semelhante” ao jogo do ‘cricket’. No entanto, os jogos do beto conhecidos não têm nada de parecido com o jogo do ‘cricket’. A minha dúvida talvez pareça muito confusa, mas o certo é que o jogo que eu estou a estudar tem possivelmente mais de 70 anos e é mesmo parecido com um jogo semelhante ao ‘cricket’. Peço desculpa pela maçada, mas se fosse possível esclarecerem-me a dúvida talvez conseguisse dar mais fio à meada e, quiçá, trazer para o momento actual esse tão belo jogo. Fico a aguardar.
Sobre o termo croça
Pelo o que se lê no Aulete Digital, depreende-se que croça (ou crossa, em outra grafia) é palavra que designa o báculo (bastão episcopal) como um todo, isto é, desde a extremidade superior recurvada até a inferior reta. Além disto, em outra acepção e por metonímia, é o nome apenas da parte recurva superior, a qual forma uma espécie de gancho ou espiral. Pois bem, quando vejo em livros e enciclopédias a referida palavra, parece ser nesse último sentido, pois não raro aparecem junto ilustrações, geralmente fotográficas, mostrando essa parte superior do báculo rica e artisticamente trabalhada, com imagens de santos e símbolos cristãos entalhados no meio da madeira que a forma, ou até mesmo toda ela feita de ouro ou prata, neste caso também com adornos ricos, incluindo pedras preciosas. Daí surgiu-me a dúvida se croça (ou crossa), nesse último significado mencionado no parágrafo anterior, denomina a parte superior do bastão episcopal, somente quando é ricamente confeccionada, ou também quando é simples, tendo somente a voluta, sem enfeite nenhum, como sói acontecer com a maioria dos báculos episcopais, ao menos com os que tenho visto aqui no Brasil. Quanto a grafia da referida palavra, a tendência dos hodiernos dicionários brasileiros da língua portuguesa parece ser a preferência pela forma crossa, por amor à etimologia imediata, o francês crosse, o qual vem do frâncico, ou germânico, krukkya. Parece ser coisa certa que crosse é a origem mais próxima da nossa croça, uma vez que aquela palavra francesa tem justamente o mesmo significado: báculo episcopal. Além de tudo, croza, da língua espanhola, graficamente parecida com croça, tem também o mesmo sentido, provindo igualmente de crosse, segundo o Diccionario de la Lengua Espanhola, em linha, da Real Academia Espanhola. Sendo assim, seria melhor mesmo escrever crossa, abandonando de vez a grafia pseudoetimológica croça, desde há muito a mais usada na nossa língua. Por favor, a luz refulgente do Ciberdúvidas, tanto sobre a questão semântica quanto a respeito da ortográfica.
Fecho de correr
Um vosso consulente questionava há alguns dias como traduzir fecho «éclair». A vossa resposta parece-me muito pouco satisfatória. Num caso destes ninguém melhor que os profissionais para dar uma resposta correcta. A minha mãe, que era costureira, dizia sempre fecho de correr. Terá esta expressão tão simples, expressiva e mesmo tão divulgada o vosso beneplácito? Fechos ecleres ou fechos-relâmpagos são ridículos. Duvido, mas talvez me engane que alguém sensato utilize realmente fecho-relâmpago. Neste caso, questiono-me sobre a legitimidade para que essa palavra possa aparecer num dicionário reputado.
Sobre o complemento indirecto pleonástico
Apetece-me fazer-lhes uma pergunta precisamente sobre o verbo apetecer. Por exemplo na seguinte frase: «Ao Nuno apetece-lhe comer carne, mas àquela rapariga apetecem-lhe sardinhas.» Penso que os sujeitos são carne e sardinhas, certo? Porque é que se usa ao mesmo tempo 'ao Nuno'/'àquela rapariga' e o pronome? Percorri as minhas gramáticas todas e não encontrei referências a esta construção, que gostaria imenso de poder explicar aos meus alunos ingleses. Desde já os meus agradecimentos pela ajuda.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa