DÚVIDAS

O que era, o que é e o que virá, outra vez
A resposta do Prof. José Neves Henriques suscita uma dúvida de ordem semântica, que está na origem da minha pergunta. Vejamos: "o que era, que é e que virá" não me parece ser o mesmo que "o que era, o que é e o que virá". Na primeira frase há uma idéia de simultaneidade, e, na segunda, não. Supondo-se que se trata do passado, do presente e do futuro, não é possível, no âmbito do pensamento, visualizar algo que incorpore simultâneamente os três estados temporais. Assim, se, a exemplo do prezado Professor, mudássemos a frase, teríamos: "Na Bíblia, o passado, o presente e o futuro são descritos com sabedoria" (verbo no plural, concordando com o sujeito composto). Não se poderia estender esse raciocínio para cada pronome "o", que adquiriria um caráter semântico diferente dos demais, forçando a considerar a frase constituída de sujeito composto com três núcleos, portanto, com o verbo no plural? Evidentemente o verbo no singular soa melhor; evidentemente, como já tem repetido o Prof. José Neves Henriques, a Língua é também para ser sentida; mas a questão permanece... Obrigado.
O verbo ser na expressão das horas
Recentemente, eu li uma definição que mexeu comigo. Aprendi a minha vida toda que um verbo de ligação mais um predicativo automaticamente pedem um sujeito (assim está na gramática de Pasquale e Ulisses). Porém... o mundo não é feito apenas de 'coisas' boas e fáceis! Celso Cunha e Lindley Cintra usaram uma definição que vai totalmente de encontro ao meu aprendizado: «Nas orações impessoais o verbo ser concorda em número e pessoa com o predicativo.» Repararam? Oração sem sujeito+verbo de ligação+predicativo. Ou seja, na frase «são 14 horas», eu tenho um predicativo sem sujeito? Obs.: Luft também coloca predicativos sem sujeito em seu Dicionário Prático de Regência Verbal. Desde já agradeço a enorme atenção que sempre tiveram com «curiosos da Língua Portuguesa».
Euromaidan e Europraça
O termo “Euromaidan”, em rigor, significa “europraça”. Assim se chama porque no fim de 2013 surgiram protestos antigoverno e pró-União Europeia, e eles tiveram como centro a praça da Independência, na capital do país. Ou seja, sendo os protestos pró-União Europeia e centrados numa praça, a palavra “Euromaidan” surgiu, e passou a ser amplamente usada pela mídia. Após algum tempo, a palavra passou a representar não somente a praça, mas também o movimento inteiro que levou à derrubada do governo naquela época. Na mídia e na escrita acadêmica anglófona, não se fala dos protestos da Ucrânia em si, mas sim do (movimento da) “Euromaidan”. A Real Academia Española, atenta à movimentação, adaptou a grafia ao castelhano: “Euromaidán”. Ela passou a ser usada na hispanosfera normalmente. A meu ver, a forma natural de se traduzir o termo para o português seria grafando-o como “Euromaidã”. Entretanto, ninguém da mídia portuguesa nem da mídia brasileira o fez. Não encontrei um texto na Internet que o empregasse. Pergunto: 1. Uma palavra nova aportuguesada só entra nos dicionários caso seja utilizada pelas pessoas? Como isso se define? Qual é o critério? 2. Caso alguém a utilize num texto acadêmico sem que ela esteja registrada num dicionário, poderá esse uso ser criticado?
O uso de solapa por Pero Vaz de Caminha
Na carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, segundo parece, lê-se o seguinte: «A feição (dos índios do Brasil) é serem pardos, um tanto avermelhados [...]. Os cabelos deles são corredios […]. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarela […] mui basta e mui cerrada que lhe cobria o toutiço e as orelhas.» Qual o significado de solapa?
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