DÚVIDAS

Não + pronome o: «Não no pode estorvar» (Camões)
Algumas ocorrências que encontrei de pronomes oblíquos átonos arcaicos: «Que estais no céu, santificado... Não no disse eu, menina? Seja o vosso nome…» (Almeida Garrett) «Ele ou é trova, ou latim muito enrevezado, que eu não no entendo.» (Almeida Garrett) «Via estar todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma; / Não no pode estorvar, que destinado / Está doutro Poder que tudo doma.» (Camões) «O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a pátria, não, que está metida…» (Camões) «Ora sabei, padre Fr. João, que eu bem no supunha, bem no esperava; mas parecia-me impossível, sempre me parecia impossível que viesse a acontecer.» (Eça de Queirós) «A culpa de se malograrem estes sublimes intentos quem na tem é a sociedade…» (Camilo Castelo Branco) «Parentes, amigos, nem visitas nenhumas parecia não nas ter.» (Almeida Garrett) Há alguma explicação para o uso da consoante n antes dos oblíquos átonos? Muito obrigado!
Sessepe, serelé, arredobrar-se (Guimarães Rosa)
Gostaria de saber o significado das palavras seguintes numa das obras de Guimalhães Rosa, que me custam bastante para encontrar alguma solução e que parecem regionalismo ou da invenção do autor pela minha dedução: a. sessépe, serelé: «O coelhinho tinha toca na borda-da-mata, saía só no escurecer, queria comer, queria brincar, sessépe, serelé, coelhinho da silva...» (as duas palavras indicam um tipo de coelhos? ou certo jogo? ou como?) b. arredobrar-se «o esperto do gato repulava em qualquer parte, subia escarreirado no esteio, mas braviado também, gadanhava se arredobrando e repufando, a raiva dele punha um atraso nos cachorros." (só posso reconhecer que o verbo indica uma acção, mas não sei qual.) Obrigada.
Dativo ético: «coma-lhe e beba-lhe»
Estou lendo O crime do padre Amaro e vi que o Eça às vezes usa expressões como «beba-lhe» e «coma-lhe», assim mesmo, no imperativo. Cito: «E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: — Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola! As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no: — Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!» Como explicar esse «lhe»?
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