O verbo deflagrar
Na frase «A situação política deflagrou em 1383-1385», qual a função sintática de «em 1383-1385»?
Tenho dúvidas se será modificador ou complemento oblíquo.
Obrigada, desde já.
O apóstrofo e a preposição de
Tenho duas questões sobre a utilização do apóstrofo em palavras compostas.
Segundo a alínea d) do ponto 1 da Base XVIII do AO90, «Emprega-se o apóstrofo para assinalar, no interior de certos compostos, a elisão do e da preposição de, em combinação com substantivos: borda-d'água, cobra-d'água, copo-d'água, estrela-d'alva, galinha-d'água, mãe-d'água, pau-d'água, pau-d'alho, pau-d'arco, pau-d'óleo.»
Ora, as minhas questões são as seguintes. Primeira, o uso nestas palavras é obrigatório, ou facultativo? Isto é, ambas as formas "mãe-d'água" e "mãe-de-água" são válidas? Segunda, só se usa nas palavras que os dicionários preveem como tal, ou em qualquer composto nas mesmas condições? Por exemplo, apenas encontro, nos dicionários que consultei, a forma botão-de-ouro para designar a espécie botânica. Poderei escrever também "botão-d'ouro"?
Desde já, muito obrigado pela vossa atenção.
Safra-nafra e escargo
Li recentemente o livro De Deus e do Homem, publicado em 1945 pela Bertrand. Trata-se de uma coletânea de textos de Pascal, escolhidos, prefaciados e traduzidos por Dinis da Luz. Nela, a dado passo refere-se:
«E assim lhes dão escargos e negócios que os põem numa safra-nafra desde o romper do dia» (p. 154).
Sobre esta frase tenho duas questões:
Nunca ouvi ou li a palavra safra-nafra mas pelo contexto parece-me que o seu sentido será equivalente a «lufa-lufa». Atendendo a que safra significa «grande atividade ou trabalho intenso», «afã» ou «azáfama», será que poderá ter surgido, por via onomatopaica, «safra-safra», e depois, por corruptela, «safra-nafra», ou o «nafra» ali será apenas uma gralha?
Também nunca me deparei com a palavra «escargo» que parece ali significar encargo, será uma outra forma de grafia da palavra «encargo», até porque «descargo» significa «pagamento de um encargo», ou apenas uma gralha?
Podem esclarecer, s.f.f.?
Muito obrigado.
Troca da terminação -am por -em (Portugal)
Em muitas localidades alentejanas diz-me "estiverem", "ficarem", "forem", em vez de estiveram, ficaram, foram.
No meu entender são erros de português, no entanto, gostaria de saber se de alguma forma tal forma de falar pode ser considerada característica do sotaque alentejano.
Obrigada!
Tritongos na fonética do português
Gostava de saber se existe algum estudo em Fonética ou Fonologia do português europeu que apoie a tese de que a sequência de vogais como em saia é considerada como tritongo.
Acontece que em várias descrições da fonética do português europeu da Rússia e da antiga URSS publicadas desde os anos 80 e até as mais recentes estas sequências vocálicas vêm sido repetidamente abordadas como tritongos «pronunciados numa só sílaba», o que gera muita confusão nos estudantes do Português Língua Estrangeira (PLE), visto que tal pronúncia é foneticamente difícil se não impossível.
Muito obrigado!
Saco e saca
Como explicar, de forma convincente e com base morfossintática sólida, a mudança da vogal temática de o para a no par saco/saca, sendo que a origem etimológica comum remonta ao latim saccus, -i, e ainda mais remotamente ao grego sákkos e ao hebraico sak, todos invariavelmente com vogal final fechada e masculina?
Estaríamos diante de um fenômeno morfológico legítimo ou de uma analogia sem base histórica consistente?
Obrigado.
A locução «para que» numa tradução da Eneida
Por conta da leitura da Eneida de Virgílio, gostaria de saber se há outros significados para a expressão «para que», além do de finalidade (sendo sinônima de «a fim de que»).
Eis o trecho:
«Filho, minha força, meu grande poder, filho, tu o único que não receias os dardos com que o sumo Pai matou Tifeu, junto de ti busco socorro e suplicante solicito o teu poder. Para que o teu irmão Eneias seja atormentado pelo ódio da acerba Juno, por todos os mares, coisas que tu sabes e muitas vezes te condoeste com o nosso sofrimento.»
No contexto da obra, não faz sentido, para mim, pensar que Vênus esteja pedindo para que Cupido, seu filho, faça com que Eneias seja atormentado pelo ódio de Juno. Em tradução de outras línguas, assim se encontra este trecho:
«Que tu hermano Eneas anda en el mar sacudido por todas las costas a causa del odio de la acerba Juno, lo sabes muy bien y a menudo de nuestro dolor te doliste.»
«It’s known to you how Aeneas, your brother, is driven over the sea, round all the shores, by bitter Juno’s hatred, and you have often grieved with my grief.»
Construção comparativa: «a mais do que»
Aproveito essa oportunidade para agradecer a toda a equipa do Ciberdúvidas o trabalho que têm desenvolvido incessantemente ao longo dos anos. A plataforma tornou-se um recurso mais que valioso para muitos seguidores da lusofonia e, sobretudo, permitam-me aqui uma nota, um meio de preservação e pesquisa de particularidades que destacam precisamente o português de Portugal, bastante e imerecidamente preterido hoje em dia em materiais didáticos estrangeiros e pela Internet fora.
Ao assunto.
1. Apareceu-me uma frase:
«[O sobrinho]… respondeu-me com o braço por cima dos meus ombros, cresceu quase meio metro a mais do que eu e tem gosto em sentir que nos protege (...)» (P., 18/08/24, por B.W.).
Embora eu tenha visto tal uso diversas vezes em edições precolendas portuguesas (Público, etc.), ouvido estar em plena circulação no português do Brasil e tenha sido o fenómeno registado em:
1. Dicionário Priberam
e 2. Infopedia – nos exemplos não verificados pelos editores e na descrição do verbete, sempre me deixa em dúvida a "convivência" das duas expressões, a meu ver, distintas: «qualquer coisa mais (do) que qualquer coisa» e «qualquer coisa a mais».
Na maioria esmagadora dos resultados que obtive ao pesquisar, a preposição a surgia na formação «a mais do que qualquer coisa», enquanto a regência verbal («... corresponde a mais do que metade...») ou nominal («referência/algo referente a mais do que...»), e não como parte da locução comparativa única. Ou, se ocorria «a mais», era seguida de um ponto final: «tantas vezes a mais»; «uns anos a mais»; «ficou com moedas a mais», etc. O mesmo acontecia a «a menos».
Se bem que isto não pareça apresentar uma agramaticalidade, se tanto, será que se precisa de a em «a mais do que» do exemplo exposto?
Em tese, podia (ou devia?) ser algo como: «...cresceu mais alto (do) que eu, ficou com meio metro a mais [ponto final]»?
Haverá cambiantes de acepção ou estilo tanto no contexto do português de Portugal como no âmbito brasileiro?
Obrigado.
Noiva e nubente
Gostaria de saber se noiva e nubente são completamente sinónimos.
Segundo o dicionário da Porto Editora, noiva significa «mulher que está para casar ou que está casada há pouco». Faz sentido, porque mesmo recém-casada, lhe costumamos chamar noiva.No entanto, a minha dúvida é se se pode também chamar nubente a uma mulher que acaba de se casar.
Podem elucidar-me, por favor? Consultei algumas fontes, mas não consegui encontrar uma explicação coerente.
Muito obrigada!
«Primos paralelos» e «primos cruzados»
As expressões «primos paralelos» (filhos de irmãos do mesmo sexo) e «primos cruzados» (filhos de irmãos de sexos diferentes) são usadas em português europeu?
Muito obrigada.
