DÚVIDAS

Aspeto iterativo e aspeto imperfetivo
Gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: por que razão é classificada nas frases «Ando a ler O ano da morte de Ricardo Reis» (situação iterativa), «Os alunos, naquela tarde de chuva, contavam entusiasmados todo o dinheiro recolhido para a viagem de finalistas» (situação imperfetiva)? Como distinguir corretamente uma situação iterativa de uma situação imperfetiva? Obrigada pela atenção.
A construção «tem vindo a» + infinitivo
Na resposta de 12.05.2017 à minha pergunta sobre o tema, o consultor Carlos Rocha falou do valor concessivo da perífrase verbal vir a + infinitivo, talvez porque fosse possível atribuir-lho ao exemplo específico que dei. Interessava-me, no entanto, o aspecto durativo que somente tem a perífrase no pretérito perfeito composto, mas não no simples, como no exemplo seguinte: «O Governo detalha esta quinta-feira as medidas para ajudar a aliviar o aumento das mensalidades do crédito à habitação, que têm vindo a escalar devido à subida das taxas de juro do BCE.» (Expresso, 18.09.2023) É à perífrase no pretérito perfeito composto, com aspecto durativo e sem valor concessivo, que me referia quando disse ser inexistente no português brasileiro. Inexistente também no PB é a construção ter estado a + infinitivo*, quase sempre empregada no PE com a mesma acepção de ter vindo a + infinitivo, do que é prova a possibilidade da seguinte reformulação da citação anterior, sem mudança aparente do sentido: «O Governo detalha esta quinta-feira as medidas para ajudar a aliviar o aumento das mensalidades do crédito à habitação, que têm estado a escalar devido à subida das taxas de juro do BCE.» No PB, parece-me que sempre se empregaria ter + particípio. Quando muito, caso se sentisse a necessidade de dar à ação um aspecto ao mesmo tempo durativo e progressivo, usar-se-ia vir + gerúndio. Assim, diríamos: «As mensalidades têm escalado.» «As mensalidades vêm escalando.» Uma busca ao Corpus do Português, do Mark Davies, encontrou resultados que, à primeira vista, confirmam a minha hipótese de se estar diante de inovação do PE, e não anterior ao século XX, já que não há ocorrências do mesmo tipo de construção com idêntico aspecto durativo antes do século passado, com a possível exceção da seguinte, extraída de Os Gatos: «[...] que é isto, senão assentar cúpula infame num edificio d'estimulos condenáveis, que as pobres têm vindo a sentir levantar-se dentro delas (mercê das causas que atrás pus) e que às propensas dará a noção de que a formosura é uma coisa que publicamente toma o passo à virtude (...)» (Os Gatos, de Fialho de Almeida) Diante do exposto, pergunto: que sentidos específicos têm ter estado a + infinitivo e ter vindo a + infinitivo (sem o valor concessivo de vir a + infinitivo) que faltariam a ter + particípio e a vir + gerúndio, considerando que as duas últimas construções também não são estranhas ao PE e são compartilhadas com o espanhol, nas mesmas acepções? Grato pela atenção. * Existe a construção que seria de esperar, no PB, como equivalente à do PE, i. e., ter estado + gerúndio, mas é, no caso do PB, evidente decalque do inglês, encontrável apenas no PB escrito, em textos de estilo comparável ao daqueles em que se encontram construções como ir (presente ou futuro do indicativo) + estar (infinitivo) + gerúndio.  
Abertura (11/04/1997)
Gulbenkian e Mia Couto Registamos com agrado o facto de a Fundação Calouste Gulbenkian nos ter anunciado a decisão de cobrir parte dos custos da instalação de Ciberdúvidas. É, assim, a primeira fundação cultural a patrocinar este projecto sobre a Língua Portuguesa. "Língua que aceita brincadeiras", como há semanas escreveu, num convite implícito, na Antologia, o romancista angolano Pepetela. O escritor moçambicano Mia Couto acaba de aceitar o convite com "Perguntas à Língua Portuguesa", um texto redigido propositadamente para Ciberdúvidas, em que o autor se recreia com tonalidades e sentidos do idioma comum, em mutação permanente. Sinais desta mudança são registados em Controvérsias, num artigo do jornalista angolano Rui Ramos: "Luandês, a nova língua da lusofonia". Dentro de algum tempo, após a reestruturação que vamos realizar em Ciberdúvidas, contamos incluir numa nova rubrica - Diversidades - textos como o de Rui Ramos, porque, antes de polémicos, eles são acima de tudo recolhas necessárias das diferenças que fazem do português uma língua viva.
«Mais e mais e mais»
A frase seguinte pode ser considerada correta: «Do modo como ando e ando, andei»? O cerne da minha dúvida centra-se na repetição da forma verbal ando intercalada pela conjunção coordenativa copulativa e. Do mesmo modo, na mesma linha de raciocínio, poderia dizer «E falei e falei e falei e falei e ele não me ouviu»? Além disso, há ainda um caso semelhante que, para mim, é mais aceitável: o do mais. Por exemplo, «Correu mais e mais, até que chegou à meta», «Comeu mais e mais e mais até engordar». Não vos parece que a expressão «mais e mais» tem o mesmo sentido de «cada vez mais» e pode-se tratar aqui de uma influência da sintaxe inglesa? Notem os exemplos: «Simply by going on and on...« ou «She wants more and more...». Aguardo o esclarecimento das minhas dúvidas. Votos de um ótimo trabalho!
Psoriásico, psoriático, psórico e psoríaco
Qual é a forma correta de escrever: "artrite psoriásica", "artrite psoríaca" ou "artrite psoriática"? As três formas são encontradas em diferentes textos, mas em nenhum lugar se fala sobre a origem do termo ou qual a forma adequada de escrevê-lo. No site dos medicamentos de Alto Custo, utiliza-se o termo "psoríaca". Em sites de sociedades médicas, os termos psoriásica e psoriática são preferidos. Todas as formas estão corretas?
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa