DÚVIDAS

Predicativo do complemento oblíquo
Estou com dificuldades em analisar sintaticamente a frase «Fiz do recreio uma festa». A minha primeira intuição foi considerar o constituinte «uma festa» complemento direto e o constituinte «do recreio» complemento oblíquo. Mas fazendo a substituição pronominal do complemento direto não me soa muito gramatical a frase «Fi-la do recreio». Parece-me que aqui o verbo fazer se comporta como um verbo transitivo direto, no sentido de «Transformei o recreio numa festa». Neste caso «o recreio» seria complemento direto e «uma festa» seria predicativo do complemento direto. Substituindo o complemento direto pelo pronome, ficaria «Transformei-o numa festa», o que é perfeitamente gramatical. O problema da primeira fase é que em termos de sentido ela é equivalente à segunda frase, mas as categorias sintáticas não me parecem encaixar bem. Outro exemplo: «Fiz o João feliz». Aqui não me parece haver dúvidas: «o João» complemento direto e «feliz» predicativo do complemento direto («Fi-lo feliz»). Mas, retomando o primeiro exemplo, eu poderia dizer, com um significado semelhante: «Fiz do João uma pessoa feliz». E, com a estrutura do verbo fazer, o complemento direto passaria a ser «uma pessoa feliz» e «do João» complemento oblíquo. Mas mais uma vez não me parece muito gramatical a construção: «Fi-la do João.» Obrigado.
O empréstimo keffiyeh
Agora que o "keffiyeh" está na moda, fiquei surpreendido por não existir nome em português para o famigerado lenço! Em artigo sobre a matéria, de 2023/12/19, publicado em jornal de referência, vejo que apenas é usado o termo "keffiyeh", exatamente como registado no Dicionário da Academia! Já quanto à "burca", em artigo do mesmo jornal, de 2022/05/07, é usado o nome "burqa"! Não sei qual o critério usado pelo jornal na escolha do termo “burqa”, em detrimento de “burca”! Na verdade, o nome "burca" não aparece no Dicionário da Academia online, mas aparece em muitos outros! Será que não existe forma portuguesa ou aportuguesada para o dito lenço?!
A pronúncia do topónimo Mariz
Sou natural de Barcelos e vivi muito tempo na "minha" freguesia de "Máriz" ou "Mariz" (sem acento no "a"). Desde a escola primária, aprendi que se escrevia "Máriz", com pronúncia de "má...", e não "ma...". Há quem pronuncie como se tivesse o acento, mas também sem o acento, especialmente as pessoas de fora. Hoje colocaram em causa isto e disseram que até se pronuncia o acento, mas a escrever não leva acento! Afinal como se escreve, "Máriz" ou "Mariz"? Muito obrigado.
Os valores semânticos da construção ao + infinitivo
Tenho visto algumas frases em que a construção ao + infinitivo me parece inadequada, possivelmente por resultar de traduções literais do inglês by + ing form, e gostaria de saber se a sua aplicação está correta ou não nos exemplos de 1 a 3. 1) Pode ver mais informações ao clicar neste link. 2) Publica um anúncio ao aceder à página principal. 3) Descobre mais novidades ao ler este artigo. Intuitivamente, costumo usar a construção ao + infinitivo em orações temporais ou temporais-causais e valido a sua utilização substituindo-a por quando ou marcas temporais similares, como nestes exemplos. 4) Ao sair de casa, reparei que me tinha esquecido da chave. (Quando saí de casa, reparei que me tinha esquecido da chave) 5) A rapariga corou ao ver o rapaz. (A rapariga corou porque/quando viu o rapaz) 6) Ouviu as notícias ao preparar o jantar. (Ouvi as notícias enquanto preparava o jantar) Eu percebo que nos exemplos de 1 a 3 se possam substituir as expressões ao + infinitivo por quando e, ainda assim, obter frases gramaticais. Contudo, parece-me que há uma notória alteração no significado destas frases. Para ser mais exata, estas frases são exemplos inspirados em traduções do inglês em que a forma ao + infinitivo serve de tradução de by + formas terminadas em -ing, que optei por não partilhar na plataforma por razões de confidencialidade. No entanto, em inglês seria mais ou menos assim: 1) You can see more info by clicking on this link traduzido como «Pode ver mais informações ao clicar neste link»; 2) You can publish an ad by accessing the home page traduzido como «Publica um anúncio ao aceder à página principal»; 3) Learn more news by reading this article traduzido como «Descobre mais novidades quando leres este artigo». Partindo dos exemplos em inglês, não me parece que haja uma intenção temporal/causal nas construções introduzidas por by + formas terminadas em -ing. Na verdade, estas construções parecem-me muito próximas daquilo a que anteriormente designávamos como complemento circunstancial de modo: 1) Como é que podes ver mais informações? Clicando no link.  2) Como é que podes publicar um anúncio? Acedendo à página inicial. 3) Como é que descobrir mais novidades? Lendo este artigo. Convocando outros exemplos, não me parece que na nossa língua se utilize o ao + infinitivo para descrever a forma como certas ações são concluídas e daí a minha estranheza perante estas estruturas. Parece-me mais natural dizer: 7) «Visitámos vários países viajando de bicicleta» do que *Visitámos vários países ao viajar de bicicleta 8) «Ela informa-se das notícias lendo o jornal» do que *Ela informa-se das notícias ao ler o jornal 9) «Desloco-me ao escritório conduzindo» do que *Desloco-me ao meu escritório ao conduzir. Ou seja, se a minha intenção é a de explicar de que forma concluo determinada ação, é natural a aplicação desta estrutura? Obrigada pela ajuda.
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