DÚVIDAS

Neologismos e estrangeirismos
Li diversos textos sobre o assunto (inclusive um dos Senhores) e, com a leitura dos textos, fica claro que o entendimento é: neologismo é uma coisa, e estrangeirismo é outra. Porém... bate uma dúvida cruel: quando aportuguesamos uma palavra, não estamos diante de um neologismo? Não dá para entender xampu, que é da gente como estrangeirismo. O gramático Fernando Pestana cita que alguns gramáticos consideram os estrangeirismos como neologismos: «Além disso, muitos gramáticos entendem que os estrangeirismos são neologismos, uma vez que palavras novas (mesmo que estrangeiras) podem ser incorporadas à nossa língua.» Entretanto eu nunca vi esses gramáticos! Na gramática do autor citado, ele também faz a distinção de um termo para outro e cita também que o estrangeirismo também pode ser adaptado, ou seja, ele parece ser contrário a minha "estranha" visão. Obs.: Até a palavra estrangeira, quando passa a ser usada de maneira inédita pelos falantes de português, eu acho que pode ser uma espécie de neologismo. Podem me ajudar? 
Associação de palavras gramaticais: «com que»
Entro em contato para sanar uma dúvida que me acompanha há algum tempo. Trata-se da locução «com que». A construção completa é a seguinte: «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara, contendo as lições de um quase nada daquela língua que ele aprendera quando seminarista.» (Extraído do prefácio da tradução de Irineu Bicudo de Os Elementos de Euclides.) Para a análise, apenas a primeira oração é importante: «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara.» Minha pergunta é: o que significa exatamente esse «com que» nesse contexto? Como parafrasear essa oração? Seria esse um caso de anástrofe – isto é, uma passagem de «Lembro que, com sentimento de encanto, folheava o caderno que um vizinho me emprestara» para «Lembro com que sentimento de encanto folheava o caderno que um vizinho me emprestara»? Tenho, porém, fortes dúvidas, porque em minhas pesquisas encontrei outro uso de «com que» que não parece decorrer de uma inversão: «Mas, com que sentimento inesperado fui surpreendido pela visão quando cheguei diante dela! Uma impressão total e grandiosa preencheu a minha alma, impressão que eu certamente pude saborear e desfrutar, mas não conhecer e esclarecer, porque consistia em milhares de particularidades harmoniosas entre si.”* (Excerto de Escritos sobre Arte, Johann Wolfgang Goethe, tradução de Marco Aurélio Werle, 2008, 2.ª edição.) Caso seja possível, agradeço se puderem indicar referências sobre essa locução «com que» e seu funcionamento sintático.
Voicemail e «correio de voz»
Desde há muito que me incutiram a não adotar o estrangeirismo e-mail ou email, e usar «correio eletrónico» na sua substituição. O mesmo para site, substituindo-o por «endereço eletrónico». Não sei se é uma abominação importada pela comunidade francófona, que é adversa a estrangeirismos de origem inglesa... Mas também sei que a língua evolui e não sei até que ponto, nos dias que correm, já são aceites esses e este estrangeirismo na língua portuguesa: voicemail. A pergunta é: voicemail ou «correio de voz»?  
Estatal e estadual
Gostaria de saber por que razão vários dicionários em linha (v.g. Priberam, Infopédia, Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa) e até o próprio Ciberdúvidas registam apenas um único significado para a palavra estadual (definindo-a como se referindo a algo relativo a Estado-membro de uma federação, e, por isso, diferente de estatal) quando a mesma palavra encontra uso em legislação portuguesa. Uma pesquisa feita a partir do motor de busca no Diário da República em linha mostra que o seu uso mais antigo, pelo menos segundo o sítio, remonta a 1960, se bem que ela continua a ser usada, podendo ser mencionado, por exemplo, o conceito de «derrama estadual». Qual a origem de estadual relativamente a estatal, e serão então as duas palavras sinónimas? Agradeço desde já.  
Consoantes sibilantes e palatais
Há algum tempo aprendi que, antigamente: 1. z não soava como s intervocálico, isto é, [z]; 2. ç (ou ci/ce) não soava como ss/s inicial, isto é, [s]; 3. ch não soava como soa habitualmente x, isto é, [ʃ]. Depois, lembrei-me de mais um par parecido de consoantes homófonos: 4. d palatal e j, que soam [ʒ]. Também queria perguntar o que se segue sobre este quarto par. A propósito de cada um destes quatro casos de consoantes agora homófonas, queria perguntar: 1. Se estou certo em dizer que antigamente se pronunciavam diferentemente; 2. Quais se acha terem sido os sons delas quando ainda se pronunciavam diferentemente (podem usar o Alfabeto Fonético Internacional na resposta); 3. Quando se acha que deixaram de se diferenciar na pronunciação. Estou interessado no sotaque de Lisboa, pois estou consciente de que terão persistido menos ou mais tempo noutras regiões de Portugal. Enfim, agradecia também se pudessem indicar alguns livros onde poderia ler mais sobre estas e outras parecidas alterações fonológicas da língua portuguesa. Antecipadamente grato pela ajuda prestada.  
Ainda a colocação do pronome com para + infinitivo
Antes de deixar a minha dúvida, gostaria de expressar a minha admiração e a minha gratidão pelo vosso trabalho. Muito obrigada! Outro dia, conversava com umas companheiras e surgiu-nos uma dúvida com a seguinte frase: «Mal posso esperar para receber-te.» Ficámos a pensar se não seria mais correto dizer: «Mal posso esperar para te receber.» Chegámos a discutir o seguinte: que é correto colocar o pronome antes do verbo, porque o verbo está no infinitivo e é antecedido da preposição para. Uma colega disse que as preposições atraem o pronome para antes, exceto a preposição a. Outra colega afirmou que se pode usar o pronome antes ou depois, mas que é mais natural e coloquial que o pronome venha antes do verbo. Eu, pessoalmente, penso que, pelo facto de o verbo estar no infinitivo, também é correto usar o pronome depois do verbo. Resumindo, não chegámos a nenhuma conclusão e, por isso, deixo aqui a minha dúvida. Mais uma vez, muito obrigada!
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